Sair de casa com segurança é possível: Taiza Tosatt Eleoterio comenta como funcionam os locais de acolhimento para mulheres

Giada Montelli
Giada Montelli
Taiza Tosatt Eleoterio

Uma das questões mais urgentes para quem decide sair de um relacionamento abusivo é prática: falta um lugar seguro para ir, e muita gente nem sabe que essa resposta existe dentro da própria rede de assistência social.

A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, com atuação voltada ao apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, observa que o desconhecimento sobre esses serviços costuma ser um dos fatores que mais prolonga a permanência em relações de risco. Saber que existe um caminho estruturado muda a forma como a decisão de sair passa a ser vista e reduz o peso de encarar essa etapa sozinha.

O que é considerado um local seguro de acolhimento?

Locais seguros de acolhimento são espaços criados para receber mulheres em situação de violência doméstica que precisam deixar de forma imediata o ambiente de risco, muitas vezes junto dos filhos. Taiza Tosatt Eleoterio comenta que eles funcionam como parte da rede de proteção prevista pela legislação voltada ao enfrentamento da violência doméstica no Brasil, ao lado de delegacias especializadas e serviços de assistência social.

Existem diferentes formatos, com tempo de permanência que varia conforme o grau de risco identificado. Casas de passagem costumam receber por um período mais curto, voltado a situações em que ainda não há risco de morte. Já as casas-abrigo, de endereço sigiloso, atendem quadros de risco mais grave e permitem permanência mais longa, com regras de convivência definidas desde a entrada. Em ambos os formatos, mulheres podem levar os filhos consigo, o que costuma ser uma das principais dúvidas de quem pensa em buscar ajuda.

Como funciona o acesso a esse tipo de acolhimento?

O caminho de entrada costuma começar por um serviço da rede de proteção: a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, o Centro de Referência de Assistência Social ou uma unidade da Casa da Mulher Brasileira, quando existente na região. Ali, a situação é avaliada e a mulher é encaminhada ao equipamento mais adequado ao nível de risco.

Taiza Tosatt Eleoterio destaca que esse encaminhamento não depende de a mulher já ter tudo decidido ou documentado. Buscar informação é, em si, o primeiro passo, e não existe exigência de comprovar o abuso antes de pedir orientação inicial. Muitas mulheres adiam esse contato por acharem que precisam chegar com um plano pronto, quando, na prática, a própria rede de proteção ajuda a construir esse plano junto com elas.

O que esperar durante a permanência nesses espaços?

Além de moradia temporária, esses locais costumam oferecer acompanhamento psicológico, orientação jurídica e apoio para reorganizar documentos, renda e, quando necessário, a escolaridade dos filhos. O sigilo do endereço existe justamente para reduzir o risco de contato com o agressor durante esse período, e por isso a comunicação com pessoas de fora costuma ser monitorada nas primeiras semanas.

Taiza Tosatt Eleoterio, nesse âmbito, pondera que esse tempo de acolhimento cumpre uma função que vai além da segurança física: é também um espaço para que a mulher comece a se reconhecer fora da dinâmica de controle vivida na relação, com apoio profissional para lidar com o impacto emocional da ruptura.

Um caminho existe, mesmo quando parece que não há saída

Muitas mulheres permanecem em relações abusivas por não enxergarem alternativa concreta, não por falta de vontade de sair. Conhecer esses serviços, mesmo antes de precisar deles, é uma forma de ampliar as opções disponíveis quando a decisão de romper finalmente amadurecer.

Em síntese, Taiza Tosatt Eleoterio reforça que a informação sobre esses caminhos deveria circular tanto quanto qualquer outro serviço público essencial, e não apenas alcançar quem já está em risco de morte. Quanto mais cedo esse conhecimento chega, menos sozinha a mulher precisa se sentir no momento de decidir.

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