Cenários de estresse ajudam a antecipar riscos em carteiras de FIDCs, avalia Saudir Filimberti, diretor da ID CTVM

Giada Montelli
Giada Montelli
ID CTVM

Prática de simular quedas abruptas na recuperação de créditos e mudanças no comportamento de sacados integra o arcabouço de gestão de risco adotado por administradores fiduciários e gestoras alinhados ao Código ANBIMA de Administração de Recursos de Terceiros

A ID CTVM incorpora simulações de cenários de estresse à rotina de acompanhamento de risco das carteiras de FIDCs sob sua administração, prática que ganhou espaço entre administradores fiduciários e gestores nos últimos anos. Para investidores que avaliam a robustez de um fundo estruturado, entender como a ID CTVM e os gestores parceiros testam a resiliência de uma carteira diante de condições adversas é tão relevante quanto acompanhar seus indicadores de rentabilidade no dia a dia.

O que caracteriza um cenário de estresse em crédito estruturado

Um cenário de estresse consiste em simular, de forma controlada, o impacto de condições adversas sobre o desempenho de uma carteira de direitos creditórios, como um salto expressivo na taxa de inadimplência dos sacados, uma deterioração acentuada da capacidade de pagamento de um setor específico concentrado na carteira ou uma queda abrupta no ritmo de originação de novos recebíveis por parte dos cedentes. O exercício não pretende prever o futuro com precisão, mas dimensionar, de forma antecipada, quanto de capacidade de absorção de perdas um fundo efetivamente possui antes que a subordinação das cotas deixe de proteger o investidor sênior.

Prática recomendada pelo Código ANBIMA, não exigência específica da CVM para FIDCs

Diferentemente de mecanismos como a segregação patrimonial ou a auditoria independente, cuja exigência decorre diretamente da regulamentação da Comissão de Valores Mobiliários, a realização de testes de estresse em fundos estruturados não figura como uma obrigação normativa específica voltada a FIDCs. A prática está inserida no arcabouço de gestão de risco recomendado pelo Código ANBIMA de Administração de Recursos de Terceiros, adotado voluntariamente por administradores fiduciários e gestoras associados à entidade como parte de um compromisso mais amplo de qualidade na gestão de risco.

Para Saudir Filimberti, diretor da ID CTVM, essa origem autorregulatória não reduz a relevância do exercício para a proteção do investidor:

“Mesmo sem uma exigência normativa específica voltada a FIDCs, simular cenários adversos é uma das ferramentas mais eficazes que um administrador fiduciário tem para identificar, antes que o problema se materialize, se a estrutura de subordinação de um fundo é suficiente para absorver um choque relevante na carteira. É um exercício de antecipação, não de reação”, afirma o executivo.

Simulações consideram diferentes tipos de choque sobre a carteira

Entre os cenários testados com mais frequência estão o aumento simultâneo da inadimplência entre os principais sacados de uma carteira, a redução do ritmo de cessão de novos recebíveis por parte dos cedentes, que pode comprometer a rolagem de uma estrutura revolvente, e a deterioração da qualidade de crédito de um setor específico ao qual o fundo esteja mais exposto. Fundos com maior diversificação entre cedentes, sacados e setores tendem a apresentar melhor desempenho relativo nesses testes, o que reforça, na prática, a importância da pulverização já destacada em outras camadas de gestão de risco de um FIDC.

Resultado do teste orienta ajustes na composição da carteira

Quando um cenário de estresse revela fragilidade relevante na estrutura de um fundo, como a possibilidade de a subordinação das cotas se mostrar insuficiente diante de um choque plausível, a resposta esperada de um gestor responsável é rever a composição da carteira, seja reduzindo a concentração em um setor ou cedente específico, seja ajustando o nível de subordinação exigido para novas aquisições de direitos creditórios. Esse ciclo de simulação e ajuste tende a se repetir periodicamente ao longo da vida do fundo, e não apenas no momento de sua estruturação inicial, acompanhando mudanças no perfil da carteira e no cenário macroeconômico.

A periodicidade recomendada para esse tipo de simulação costuma variar conforme a complexidade da carteira e a velocidade com que sua composição se transforma ao longo do tempo. Fundos com estrutura revolvente, que renovam parte relevante de seus ativos em intervalos curtos, tendem a exigir testes mais frequentes do que estruturas com carteira mais estável e prazo de vencimento definido, já que a exposição a novos cedentes e sacados se altera com maior velocidade nesses veículos. Documentar formalmente cada simulação realizada, incluindo as premissas adotadas e os resultados obtidos, também se tornou prática recomendada entre administradores fiduciários, de forma a permitir que gestoras e investidores institucionais acompanhem a evolução da resiliência de uma carteira ao longo de diferentes ciclos econômicos.

A ID CTVM, que reúne mais de R$ 50 bilhões em ativos sob administração e custódia, aplica esse tipo de simulação de forma recorrente às carteiras de FIDCs sob sua responsabilidade, como parte de um processo de gestão de risco que combina auditoria de lastro, monitoramento de indicadores de inadimplência e testes de sensibilidade a cenários adversos.

Perspectivas para a gestão de risco em fundos estruturados

Com a indústria de FIDCs consolidando um patamar de maturidade cada vez maior no mercado de capitais brasileiro, a tendência é que investidores institucionais passem a exigir, de forma mais sistemática, evidências de que administradores fiduciários e gestores efetivamente testam a resiliência das carteiras que administram, e não apenas monitoram indicadores retrospectivos de desempenho. Para administradores fiduciários, incorporar essa camada de simulação prospectiva ao processo de gestão de risco tende a se consolidar como um diferencial relevante na relação de confiança construída com cotistas mais sofisticados.

Sobre a ID CTVM

A ID CTVM é uma instituição especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, com serviços de administração fiduciária, custódia, escrituração, controladoria e distribuição de fundos de investimento. Fundada em 2020, a companhia reúne atualmente mais de 550 fundos e mais de R$ 50 bilhões sob administração e custódia, com presença relevante em estruturas como FIDCs, FIPs e FIIs. Combinando tecnologia, governança, conhecimento regulatório e eficiência operacional, a ID oferece suporte a gestores, investidores, empresas e demais participantes do mercado, contribuindo para operações mais seguras, eficientes e transparentes.

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