Deságio e valor real: como precificar ativos financeiros em situação de estresse

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Felipe Rassi

Para Felipe Rassi, especialista em créditos estressados com experiência em operações de alta complexidade, precificar um ativo financeiro estressado é uma das tarefas mais exigentes do mercado de crédito. Não existe fórmula única, e as variáveis que determinam o valor correto de aquisição mudam conforme o perfil do devedor, a natureza da garantia e o ambiente jurídico que cerca a operação. A diferença entre uma precificação bem calibrada e uma mal feita pode definir o sucesso ou o fracasso de toda uma tese de investimento, e entender o que está por trás desse processo é o que separa os compradores que constroem retorno consistente dos que acumulam posições difíceis de justificar.

Entender o que está por trás do deságio é o ponto de partida obrigatório para qualquer decisão de aquisição nesse mercado.

O deságio é um sinal de oportunidade ou um aviso de risco?

Quando um ativo é ofertado com deságio expressivo, o mercado está comunicando algo. O problema é que esse sinal pode ter origens muito distintas, e confundi-las leva a decisões equivocadas. Um deságio alto pode refletir:

  • Genuína incerteza sobre o valor recuperável, com riscos jurídicos ou patrimoniais que tornam a recuperação imprevisível.
  • Pressa do vendedor ou limitações regulatórias que o impedem de manter o ativo em carteira, independentemente de sua qualidade real.

Nos dois primeiros casos, o deságio embute risco real que precisa ser cuidadosamente mapeado antes da aquisição. Nos dois últimos, ele pode representar uma oportunidade para compradores com capacidade analítica superior. Distinguir entre essas situações exige ir além do número e entender o contexto que o produziu. Felipe Rassi, ao estruturar operações de aquisição de créditos estressados, parte justamente dessa leitura contextual como primeiro filtro de avaliação, reconhecendo que o deságio é o ponto de partida da análise, não a conclusão dela.

De que forma se estrutura o valor recuperável?

Precificar corretamente um ativo estressado significa estimar com realismo quanto será possível recuperar, em quanto tempo e a que custo. Cada um desses três elementos tem seus próprios fatores de incerteza, e a modelagem precisa tratá-los de forma explícita, sem otimismo injustificado.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

O valor recuperável depende, em primeiro lugar, da existência e qualidade das garantias. Um crédito com alienação fiduciária de imóvel bem constituído e registrado tem um piso de recuperação muito mais previsível do que um crédito quirografário contra um devedor com patrimônio disperso. Em segundo lugar, depende do comportamento esperado do devedor: sua disposição para negociar, a existência de outros credores com prioridade e a probabilidade de que um acordo extrajudicial seja mais eficiente do que a execução judicial. Por fim, depende do custo operacional da recuperação, que inclui honorários, custas processuais, tempo da equipe e eventuais despesas com avaliações e leilões.

O papel do tempo na equação de retorno

Investidores pouco experientes no mercado de ativos estressados frequentemente subestimam o impacto do prazo de recuperação sobre o retorno efetivo da operação. Um ativo com valor nominal de recuperação atrativo pode se tornar pouco interessante quando o tempo estimado para realizá-lo é de cinco a sete anos, especialmente quando esse prazo é incerto e pode se estender.

O custo de oportunidade do capital imobilizado em uma posição de longa maturação precisa ser incorporado na modelagem desde o início. As operações judicializadas no Brasil têm prazos que raramente podem ser estimados com precisão, e as premissas de tempo costumam ser as que mais divergem do realizado ao final do processo. Trabalhar com cenários de estresse para o prazo, e não apenas para o valor recuperável, é uma prática que distingue as modelagens mais robustas das mais otimistas. A experiência de Felipe Rassi em operações de recuperação de crédito reforça a importância de tratar o fator tempo com o mesmo rigor aplicado às demais variáveis.

Quando a precificação precisa ser revista ao longo do processo?

A precificação de um ativo estressado não é um exercício feito uma única vez no momento da aquisição, e Felipe Rassi é categórico sobre esse ponto: ela precisa ser revisitada periodicamente à medida que novas informações surgem. Mudanças na situação patrimonial do devedor, decisões judiciais que alteram a posição do credor, deterioração ou valorização das garantias e variações no ambiente macroeconômico que afetam a liquidez dos ativos são fatores que podem modificar substancialmente o valor esperado de recuperação ao longo do tempo.

Gestores que monitoram continuamente suas posições e ajustam suas estratégias de recuperação com base nas novas informações disponíveis tendem a extrair mais valor do portfólio do que aqueles que fixam uma tese inicial e não a revisam. Esse dinamismo na gestão é uma das competências mais difíceis de desenvolver, porque exige disciplina analítica combinada com disposição para reconhecer quando as premissas originais precisam ser atualizadas.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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